sábado, 23 de setembro de 2017

Emilio Villa



Lingüística (1941)

Não há mais origens. Nem. Nem pode-se saber se.
Se foram as origens e nem.
E nem há razão que nasçam
as origens Nem mais
a fé, ídolo de Amorgos!

quem dizes origina as origens no toque do acento
no sonho mortal do necessário?
Não, não há mais origens. Não.
Mas
o trânsito provocado pelas idéias antigas - e dos impulsos.
E qualquer ambígüo que brote intacto
das relações
das trajetórias
das radiações
das concepções

lugar sem histórias.
Lugar onde todos.
E onde a consciência.
E onde o onde.

Para reconhecer o incomensurável sêmem das vertigens
vislumbradas
as junções estaladas nas ligações
a transparência das cartilagens
o cego espanto das folhagens

agrícolas nas forças
exteriores, e a análise funda
incisa no corpo do acento.

Não.
Não há mais. Nem origens nos galhos. nem não origens.

Quem parava os sintagmas sácios nos sortilégios da consistência
usava o espírito sem remédio no momento indecisivo
como um compasso inapto, não esperto, assim não podia-se
agir mais nada, mais, sombra ferida e referida, projeção
sem essência, de forma que especular sobre o tédio comum
pareceu um jogo, e cada átimo-fonema
ainda hojemdia beira guerra e tempo consumido, e o peso
corrompe da sombra dos trâmites da essência.

E tal seria. Este o fim concebível:
se por meio da idéia máxima do perigo e do indistinto
curva-se a alma extrema no atrito do idrogênio e do ozôno e os dias
imaturos somam dias aos dias cotidianos na heráldica
prosodia das tangências,
sufocando cada fluxo de infalível irrealidade em:
os verbos
os neologismos.

Quem os braços levantava saciados de violetas no palpitar absorto
hoje compara cada ruina compara ao espírito
imune que povoa e enruga em segmentos o nimbo
dos testemunhos históricos, das parábolas no útero 
confuso das paróquias e nas largas zonas
de caça e pesca e de outras enérgicas funções culturais.

E não por isto celebro conscientemente o germe
sepultado, além,
e cérebro o étimo corroído pelas íris fônicas,
o étimo imaturo,
o étimo culto,
o étimo dos espaços avariados,
nos mínimos intervalos,
nas conjunções,
o étimo da solidão possuída,
o étimo na sede
e na sede idônea às fósseis pedras iluminadas
pelas fosforescências iduméias, ídolo de Amorgos!
[trad. De Andrea Lombardi]



Mata-borrão parta Flavio Motta
MATA-BORRÃO PARA FLAVIO MOTTA

eu diria l’m encantado, e então 
uma nuviosa designação de continentes involuntarios por jogos
nasais, fundos jogos, acende
ao lonje entre os anos desperdidos itinerantes 
como faiscas de amarguras 
abdominais, como bichos de cristal na nuca muda, acende 
o nome mais amado mais miolo mais milagre 
e o quem diz: “agora!”e o quem

cai no corte mítico do mundo, nas luminosas
trovejadas generações dos nomes: léxico
jejum e fresco come o prado de espinafre de trevo
no recóncavo, pálidas requisições de ecos
e espirros e réplicas, anforas anoitecidas
no pulmão gigante, palpitantes gengivas, cenoiras
africanas, paleoafricanas, protoafricanas, coxas
rasgadas o abertas, polpas de abóboras
ideais: agora, agora. Nam rectitudo
per se est phallica, truncada também, devagazinha:

onde uma zigoma torna-se sigla e sigilo, torna-se
constellação deitada nas escuras polpas sem nomes
e incha-se então de raiva a fonte das medidas 
e das mudançãs, lá, eu digo, provocar
o poder subhumano da pasmação, do broto
não mortal, o vôo ocioso, o ganir
chupado, de viboras nas câimbras
das vagas, dos grans, e veremos lampejar 
a alta caça, a esgrima
em voz baixa na caveira, as balanças de ossos
eschatologicos, agora mismo,

si o sangue da sombra não é sangue ni sombra,
si o cavalo do cavalo agora é sombra desmaiada
o sombra brotada na suma sombra ostra, o som
da tromba saca o celeste descontecer, afrouxa
o orvalho, e o remo corta em dois as cinzas 
dos vivos e as cinzas dos sons, como
na páscoa dos continentes cortó o Brazil e a Angola,
cortó as arvores da ciencia e as arvores da loucura
peregrinante, cortó o tubarão em dois espelhos
a tromba grande: não agora.

Bahia, 1951

Os puristas são enfadonhos e inúteis [i]

A superioridade da língua brasileira sóbre a portuguêsa não consiste no fato de ser uma sua derivação provincial ou marginal, ou, mesmo, colonial. Se assim fósse, o idioma brasileiro estaria fadado a bem cedo tornar-se árido numa cristalização secundária, Inadequada para as grandes tarefas que lhe incumbem. Ao contrário, se a língua não representasse evolução, movimento contínuo, hoje no Brasil falaríamos ainda, não o idioma brasileiro, que deve constituir personalidade própria e definida, mas a fala cortês, "courtois", dos antigos trovadores galego-portuguêses? de 1300.

Os puristas, que sempre ignoram a verdadeira história das línguas, talvez suponham que o português seja um idioma puro. Quando dizem que se trata de uma língua derivada do latim,
(assertlva clentllicamente errada), dlsse­mm tudo. Ora, o português é uma com­binação morfológlca de:
            léxico latino provincial
            léxico latino tardio e medieval
            léxico latino eclesiástico
            léxico latino da renascença
            léxico árabe e persa
            léxico francês
            léxico franco-provençal
            léxico hispano-catalão
Mais:

resíduos bascos
resíduos germânicos diversos
resíduos literários italianos
resíduos inglêses
resíduos franceses modernos

Mais:

todo material neologístico popular

Mais:

as contribuições brasileiras coloniais
as contribuições do léxico indigena ameríndio.

Mais:

tôdas as fon/tações espontâneas popu­lares
e da gíria, próprias dos dialetos brasileiros.




[i]In HABITAT n. 7 Diretor Arq. Lina Bo  Bardi São Paulo, Habitat Ed. Ltda. Rua sete de Abrril, 230/8º [ 1950]  

segunda-feira, 20 de abril de 2015


ancora su Machiavelli ....



Ho su Machiavelli almeno tre obiezioni fondamentali:

1. Il suo stile di scrittura non è affatto eccelso (questo l´hanno già detto, in particiolare credo, Gianfranco Contini, anche se non sono riuscito a trovare la citazione giusta!). La sua lingua può essere sí vivace, ma non ha uno spessore grande. Machiavelli vuole "buttare" in faccia al lettore, all´interlocutore qualcosa che chiama "verità effettuale", non tenendo conto a) che non esiste una "unica verità" e b) che lui stesso cambia posizione e mostra di difendere una visione soggettiva.

2. Machiavelli pare che sostenga l´unificazione della penisola italiana, ma si dimentica che Venezia fa parte integrante delle potenze politiche "italiane" dell´epoca. Non includendo Venezia ed anzi avendo incentivato una alleanza (la Lega di Cambrai) con la Francia contro Venezia, non avrebbe mai potuto ottenere una forte unità "italiana". Sarebbe stata l´unificazione di una mezza penissola, senza l´Adriatico (controllato da Venezia).

3. "Il fine giustifica i mezzi". Molti sostengono che non sarebbe questa una frase originale de Il Principe. É vero. Ma ci sono elementi sufficienti per affermare che a) frasi analoghe ci sono nel testo (vedi il cap. XVIII) e b) che la pratica suggerita ne Il Principe corrisponde pienamente a questo principio (il fine...). La mia principale obiezione: in letteratura, pensare al "fine che giustifica i mezzi" sarebbe disastroso. Ciò che conta, in letteratura, sono i segni e le espressioni del testo. Nessun fine sostituisce un´analisi dettagliata dei testi. Le critiche dei testi che partono da un fine sono appiattite su tesi sociologiche, poliutiche, filosofiche o storiche.


È vero: io stesso qui, mostro una presa di posizione a partire dal mero contenuto, come se fosse ideologica, contro Machiavelli. Ma il vero metodo, a me sembra, viene indicato da Roland Barthes, per esempio, in "La Camera Chiara" con il concetto di "Mathesis singularis".

Andrea
PS Inoltre, mi sembra che l´effetto principale de Il Principe è quello di garantire all´ex Segretario fiorentino (Machiavelli stesso) un posto "al sole" di nuovo nel governo, il ché denota un forte opportunismo. Quello che lo condanna è il fatto - oltretutto - di non essere riuscito ad a ottenerlo. (ma se l´avese ottenuto, le obiezioni indicate sopra, rimarrebbero)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Um debate no Facebook, pró ou contra Lévinas?

UMA DISCUSSÃO SOBRE LÉVINAS NO DIA 19 DE JUNHO DE 2013 COM NOEMI JAFFE e outros amigos
Noemi Jaffe
Desculpem o pedantismo da colocação filosófica, mas é que é tão pertinente e, na minha opinião, importante, que não resisti:

"A ética é a filosofia primeira, anterior a toda filosofia possível. É
anterior à aventura do saber e às truculências da tematização [...] A
subjetividade não é razão temática, é sensibilidade. A
intersubjetividade não é estratégia arrazoada, é recebimento. Assim
como a sensibilidade e o recebimento são anteriores a razão temática e
à estratégia arrazoada, assim também a ética é anterior a
fenomenologia transcendental, à ontologia fundamental existencial e a
toda filosofia possível"
Emanuel Lévinas
·         Giselda Leirner " A VERDADEIRA VIDA ESTÁ AUSENTE". MAS NÓS ESTAMOS NO MUNDO . Emanuel Lévinas
         
Andrea Lombardi Como é aquela tradição onde entre dois há três opiniões? "A ética é a filosofia primeira, anterior a toda filosofia possível." Não, não precisamos procurar "filosofias", amigas das ciências ou amigas da onça. Pois - em princípio - filosofia é leitura que renega a materialidade da escrita e sua exegêse, em estilo concretista ou bíblica (tanto faz). Não é primeira, pois antes do primeiro havia o nada, ou seja: é a tradição grega que procura "o primeiro" (Platão, Heráclito? ). A tradição judaica (do outro lado), preza a interpretação à partir da materialidade de um texto, sua leitura, releitura e interpretação.

·         
Andrea Lombardi Que a intersubjetividade fosse recebimento, em outras palavras, o disse tb o rabino Hillel e, depois dele, o pensamento cristão. Mas intersubjetividade é conflito, pois na leitura há conflito contra os precedecessores (Bloom). Não: não há "uma " ética. Há uma ética das decisões, estratégias de leituras possíveis (algo que Ricoeur poderia ter falado).

·         
Andrea Lombardi Viu, Giselda minha queridíssima: Nem dá apara aceitar que a "verdadeira" vida estaria ausente. O que é verdadeiro? Aletheia grego? Verdadeiro é algo que os filósofos espalharam, para eles poderem administrar a interpretação (Platão: Fedro, República e outros textos).
Leonor Rufino Ética é ação !

Andrea Lombardi Nós, filhos das vanguardas (netos, bisnetos), tataranetos dos romanticos alemãos, herdeiros do que não poderia escrever poemas depois de Auschwitz, devemos dizer às claras letras: somos a favor da autenticidade, na´da verdade, a favor da experiência, não da verosimilhança. Somo radicais...
Álvaro, tentando desenhar um pouco minha pobre compreensão de Lévinas (e o Andrea aqui abaixo entende melhor do que eu), a ideia geral é a de que não se deve (ou pode) ir atrás de uma essência, um núcleo puro e original. A ética, assim, anterior à filosofia (essa busca ontológica) está nas leituras, nas interpretações e os encontros (a intersubjetividade) devem ser marcados por uma outridade, recebimento e não pela mesmidade, pela quididade. Não busco a mim no outro mas busco o outro em mim.

Andrea Lombardi OI! Noemi Jaffe: certamente eu não entendo mais, mas a perspectiva de leitura minha é (um pouco!) radical. Há uma boa confusão, entre filosofia como norma de vida (filosofia moral), filosofia como tradição filosófica do Ocidente (o essencialismo, de que fala Derrida) e filosofia como conceito popular, do dia a dia... Nada contra o terceiro (minha filosofia, o Dalai Lama prega uma filosofia e os indigena defendem uma filosofia de vida ambiental, ou algo assim: eu defendo essa última visão!). Mas - sem escolher uma entre várias visões,a "FILOSOFIA" (com letras maiúsculas) subentende uma perspectiva "essencial", "única", "privilegiada", "iluminada", que é mais o u menos a que Platão afirma... (e, acrescenta, o filósofo grego) e O FILÓSOFO (ele mesmo!), que pode interpretar melhor as coisas, enxergar "a essência" do que estaria escondido aos demais...
Andrea Lombardi Mas a tradição judaica trouxe o louvor ao texto, à escrita alfabética, INDEPENDENTEMENTE, do seu intérprete. Ou seja: haverá sempre um novo intérprete, para o mesmo texto, o que significa que .... A INTERPRETAÇÃO É INFINITA (o exato contrário da interpretação privilegiada e única). A relação entre leitor e texto, é sempre uma relação crítica, de CONFLITO, pois o leitor quer sempre extrair do texto, algo que o texto "não quer largar", uma interpretação, uma leitura, que o texto original NÃO QUER soltar. Por que:? Por que o texto original se apresenta com sua materialidade (escrita alfabética) e com a acréscimo das críticas que grudaram no texto (por ex.: Antonio Cândido, Roberto Schwartz ou qualquer outro crítico, por melhor que seja). O novo leitor (novamente Harold Bloom ecoa aqui) precisa abrir seu espaço na leitura, precisa ganhar sua autorização à leitura nova e original e, portanto, ele precisa entrar EM CONFLITO com o texto tradicional. Em GUERRA (não necessariamente com a parte violenta das manifestações, mas algo parecido). Por isso, não consegui nunca entender Lévinas, cujo estilo da escrita eu curto, mas cujas orientações (filosofias?) parecem-me orientadas à conciliação, submissão da opinião própria, aceitação da necessidade de juntar os cacos (mas juntar os cacos, além de um famoso mito cabalista, não é nada tão proveitoso: Vc já juntou os cacos de uma jarra? Funcionou? ... Peço desculpa pela minha heresia, a verbosidade e os -prováveis - infinitos erros de ortografia e gramática. Mas, Vc sabe, Noemi , eu me sinto ainda OUTRO e ainda sou estrangeiro (não sei se mais pela origem judaica ou aquela italiana) . Ou melhor: sempre serei estrangeiro. Pois estar na posição de estrangeiro talvez seja o ponto de vista melhor para ler...


Valmir Ferreira E no lugar do não roubarás, compartilhar o pouco que tem com aquele nada nada tem.
Juliana Sá Deixar viver, fazer viver.
Irene Sinnecker Levin amar o próximo como a si mesmo
Andrea Lombardi Sim, sim, nada contra... ´E o que Hillel disse (II. sec a. C.), e o que a religião cristão pregou: "fazer de tudo para que outro viva"; não roubar", "Deixar viver", "amar o próximo como a si mesmo". (a verdade é que eu gosto da polêmica!). Desculpem parecer ser tão agressivo, mas eu estou convencido que assim não se tira do texto sua linfa vital, sua alma, sua respiração viva (e não artificial), seu alcance, seu estilo e seu carisma. Para que ler textos interessantes, se é para confirmar um opinião preconcebida? Ou seja: que deve ter um final feliz? ??? Existe, sim, o final feliz, mas é na comédia, tradicionalmente. Há a tragédia (na tradição grega e gréco-cristã) e, finalmente, há uma tradição nova: de Kafka a Benjamin, de Jakobson e Derrida, passando pelo estruturalismo, o pós-estruturalismo. Todos esses defendem o caráter decisivo do estudo do texto...


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ferreira Gullar acerta 100%



Ferreira Gullar acerta 100%
a procura da ética

Gostaria de deixar claro que não sempre minhas posições coincidem com de alguns intelectuais, como Ferreira Gullar (afinal um poeta, se for bom, não precisa ser um cidadão ético). Afinal, cada um de nós tem sua posição. Mas que esse texto do Ferreira Gullar acertou... não há dúvida. Ele acertou mesmo! ! Em cheio ! Redondo! 100% , por isso vou sugerir dar uma lida nele.
A política, dizem, é uma escolha racional.... 
Não é bem assim! A política é algo muito emocional, epidérmico, que vem de longínquos e aleatórios estímulos: chamados da ética, dos princípios (às vezes a gente é movido por algo sublimado e... se sente melhor!) ...A gente se rebela, quando vê uma injustiça, não se lê o texto de um iluminista...
Pensávamos há 15 anos (e o mundo ainda pensa) que este estilo bonachão, paternalista, que ainda pensa conforme antes do muro de Berlim, podia mudar o Brasil. E mudou mesmo, não mudou? Conquistou a simpatia do mundo, não conquistou? POr outro

 lado, quem não pensava que Cuba e Venezuela não eram "amigos" e quem não condenava "as elites", responsáveis por tudo. Quem não aplaudiu o "bolsismo " (ou seja: aquela danada tendência em reduzir qualquer avanço social despejando bolsas, que agora influenciam 20/30 % do eleitorado) 
Mas o contexto mudou. O mundo mudou e hoje pensamos que tudo isso não está certo, especialmente se o preço foi comprar com dezenas de milhoes de dinheiro público o apoio dos partidos todos. A situação muda e continuar com estilo sindicalista radical (todos que fazem parte do meu time são amigos, os que não são do grupo: inimigos. A vida se ganha comprando os adversários e sempre mostrando-se conciliador)
Mas... o que estou fazendo... essa é só minha opinião, não a de Ferreira Gullar. Muito melhor é que Vcs leiam o artigo dele. Sobre o mensalão. Eu, de minha parte, concordo 100% 



Ferreira Gullar
Ferreira Gullar é cronista, crítico de arte e poeta. Escreve aos domingos na versão impressa de "Ilustrada".


 30/09/2012 - 03h00

Tapar o sol

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/1160933-tapar-o-sol.shtml 

Gostaria de deixar claro que não tenho nada de pessoal contra o ex-presidente Lula, nem nenhum compromisso partidário, eleitoral ou ideológico com ninguém. Digo isso porque, nesta coluna, tenho emitido, com alguma frequência, opiniões críticas sobre a atuação do referido político, o que poderia levar o leitor àquela suposição.
Não resta dúvida de que tenho sérias restrições ao seu comportamento e especificamente a certas declarações que emite, sem qualquer compromisso com a verdade dos fatos. E, se o faço, é porque o tenho como um líder político importante, capaz de influir no destino do país. Noutras palavras, o que ele diz e faz, pela influência de que desfruta, importa a todos nós.
E a propósito disso é que me surpreende a facilidade com que faz afirmações que só atendem a sua conveniência, mas sem qualquer compromisso com a verdade. É certo que o faz sabendo que não enganará as pessoas bem informadas, mas sim aquelas que creem cegamente no que ele diga, seja o que for.
Exemplo disso foi a entrevista que deu a um repórter do "New York Times", quando voltou a afirmar que o mensalão é apenas uma invenção de seus adversários políticos. E vejam bem, ele fez tal afirmação quando o Supremo Tribunal Federal já julgava os acusados nesse processo e já havia condenado vários deles. Afirmar o que afirmou em tais circunstâncias mostra o seu total descompromisso com a verdade e total desrespeito com às instituições do Estado brasileiro.
Pode alguém admitir que a mais alta corte de Justiça do país aceitaria, como procedentes, acusações que fossem meras invenções de políticos e jornalistas irresponsáveis?
E mais: os ministros do STF passaram sete anos analisando os autos desse processo, tempo mais que suficiente para avaliá-lo. Afirmar, como faz Lula, que tudo aquilo é mera invenção equivale a dizer, implicitamente, que os ministros do STF são coniventes com uma grande farsa.
Mas o descompromisso de Lula com os fatos parece não ter limites. Para levar o entrevistador do "NYT" a crer na sua versão, disse que não precisava comprar votos, pois, ao assumir a Presidência, contava com a maioria dos deputados federais.
Não contava. Os verdadeiros dados são os seguintes: o PT elegera 91 deputados; o PSB, 24,; o PL, 26, o PC do B, 12, num total de 153 deputados. Mesmo com os eleitos por partidos menores, cuja adesão negociava, não alcançava a metade mais um dos membros da Câmara Federal.
Cabe observar que ele não disse ao jornalista norte-americano que não comprou os deputados porque seria indigno fazê-lo. Disse que não os comprou porque tinha maioria, ou seja, não necessitava comprá-los. Pode-se deduzir, então, que, como na verdade necessitava, os comprou. Não há que se surpreender, Lula é isso mesmo. Sempre o foi, desde sua militância no sindicato. Para ele, não há valores: vale o que o levar ao poder ou o mantiver nele.
Sucede que, apesar do que diga, ninguém mais duvida de que houve o mensalão. Pior ainda, corre por aí que o Marcos Valério está disposto a pôr a boca no mundo e contar que o verdadeiro chefe da patranha era o Lula mesmo, como, aliás, sempre esteve evidente. E já o procurador-geral da República declarou que, se os dados se confirmarem, o processará. É nessas horas que o Lula falastrão se cala e desaparece. Às vezes, chama Dilma para defendê-lo.
Desta vez, chamou o Rui Falcão, presidente do PT, para articular o apoio dos líderes da base política do governo. Disso resultou um documento desastroso, que chega ao ponto de acusar o Supremo de perpetrar um golpe de Estado contra a democracia, equivalente aos golpes que derrubaram Vargas e João Goulart. Pode? Vargas e Goulart, como se sabe, foram depostos pela extrema direita com o apoio de militares golpistas.
O julgamento do STF realiza-se às claras, à vista de milhões de telespectadores. Não é uma conspiração. Ele desempenha as funções que a Constituição lhe atribui. E que golpe é esse contra um político que não está no poder?
O tal manifesto só causou constrangimento. O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, deu a entender que foi forçado a assiná-lo, após rejeitar três versões dele. Enfim, mais um vexame. Só que Lula, nessas horas, não aparece. Manda alguém fazer por ele, seja um manifesto, seja um mensalão.

domingo, 11 de março de 2012

Leggere anche i bestseller/ leggere tutto !!


Vogliamo leggere anche i bestseller / Vogliamo leggere tutto !

A proposito dell´invettiva di Pietro Citati contro la lettura dei bestseller  (O tempora o mores !)

Pietro Citati è um critico di un´antica generazione (è nato nel 1930). Prolifico, elegante, finíssimo. Da ricordarsi (la memória è debole) l´armonia del mondo, Kafka (due che ho letto) e molti molti altri. Dunque, una critica (che ha tutto il sapore di un´invettiva) che viene da questo pulpito deve essere letta, pensata e analizzata.  Riflettuta assai. Certo è che,  essendo di fatto portavoce di una generazione precedente, viene anche il dubbio che il suo ”O tempora o mores” sia legato a una visione generazionale...
Anni fa, a San Paolo (Brasile) Edoardo Sanguineti lanciava una delle sue implacabili battute (ed era a casa nostra). “Non si è mai prodotta tanta poesia come al giorno d´oggi”, diceva il vivacíssimo critico. Un paradosso, quello, che contrappone l´ideale della produzione (una vera idiozia), con il consumo che, nel caso della letteratura è certamente um problema di qualità (di lettura) e non kg di peso della carta. Allarmato, Citati afferma:

Anche i numeri stanno calando. Negli ultimi mesi le vendite dei libri — sia delle clamorose novità sia del lento catalogo — sono discese di circa il 12 per cento rispetto agli anni precedenti: così mi dicono.

Siamo bombardati da notizie che vengono dallle nostre economie che “crescono”, quando si vendono il 5% o il 13 % in più di automobili  e “sono in crisi”, quando l´aumento delle  vendite scende al 3%, o giù di li. Il problema certamente non sta nelle vendite (o non solo nelle vendite) dei libri. Il problema sta nel livelli di lettura e si nasconde su un  altro piano: quello dell´intensità, riferimenti (intertestuali), apertura in rapporto al carattere infinito delle letture possibili.  Forse il problema sta nel rapporto con quello che siamo abituati a chiamare i classici (e su cui Italo Calvino ha scritto um divertente elzeviro sull´Espresso: “Perché leggere i classici”).
Il problema non è, a mio avviso, lo stabilire che leggere i classici è un bene e leggere un bestseller è un male. In fondo, Boccaccio, con il suo Decameron a suo tempo, era certamente um bestseller (se a ritroso si può usare questa categoria). Ed anche Dante lo era (tutti lo sapevano a memoria, anche se lo storpiavano).
Oggi, è evidente, la letteratura non gode di quel prestigio che le arrideva nel sec. XX o prima. L´intellettuale umanista è tollerato, è relegato a insegnare in conventi sconosciuti al grande pubblico, chiamati Università (l´idea non è mia, ma dell´amico Raul Mordenti nel suo ottimo L´altra critica). Il patto implicito è che l´intellettuale, rinchiuso nella prigione dorata, non può e non deve interferire negli affari della società , Può sì  teorizzare, ma senza passare alla pratica (la XIa tesi di Marx su Feuerbach lo suggeriva: “Fin´ora gli intellettuali si sono limitati a interpretare il mondo. E giunta l´ora di cambiarlo”).


 Da sinistra: l’americano Dan Brown (1964), padre del «Codice da Vinci»; Giorgio Faletti (1950), autore di numerosi bestseller italiani a partire da «Io uccido»; il brasiliano Paulo Coelho (1947), diventato celebre in tutto il mondo con il romanzo «L’alchimista» del 1988
No. Leggere i classici, non cambierebbe questo stato di cose. Occorre vedere come leggerli. Perché uma lettura pedissequa, tradizionale, scialba e sottomessa alla tradizione può produrre solamente dei Funes (da Funes El memorioso di Borges, il malcapitato che ricordava assolutamente tutto e com cio non riusciva a pensare e  ad agire), può riprodurre dei lettori sottomessi e, quindi, a loro volta: scialbi.
Leggere suppone uma etica della lettura , cioè un´arte del  leggere, in cui il lettore fronteggia il testo, per trovare un´apertura nuova e produttiva: secondo i dettami della critica stilistica (di Spitzer e Contini), o secondo quanto afferma Harold Bloom. Il lettore, cercando il varco, la fessura d´entrata nella macchina del testo, dovrà prima esploderlo, ridurlo a frammenti, per poi ricostruirlo, secondo un altro piano, un´altra strategia.
Tra il testo e l´interpretazione nuova del lettore si apre un conflitto (come afferma Bloom nella sua Angoscia dell´influenza) in cui – aggiungerei – il lettore afferma la sua interpretazione perché pervalga e permetta una nuova lettura, produttiva e pertinente. Questa scelta – del lettore – è una scelta difficile, complessa: ed è uma scelta di liberta. Per questo un´etica della lettura.
Condivido, in ogni caso, il giudizio sottinteso di Pietro Citati su Paulo Coelho, perché proprio per un esercizio di lettura (gli studenti della mia università lo leggevano, era stato innalzato a membro della prestigiosa Accademia brasiliana di Lettere) avevo preso, mi pare, il suo l´alchimista. E nella mia lettura trovavo che Coelho usava fondamentalmente tre ingredienti:
1. La lunghezza dei suoi capitoli era della durata di una fermata di metropolitana (per facilitare uma lettura “di corsa”
2. A volte ci sono delle citazioni anche interessanti (la cui ricerca su Google è grátis e rápida), com cui  invogliare il lettore curioso, alla stregua di un oroscopo  o una filosofia a buon mercato e
3. Una mistica molto al di sotto della pur tênue Madame Blavatski, che però poeti anche famosi infatuava. Una mistica che sembrava il frutto di un patto con l´Osservatore romano o qualche Istituzione come l´Opus dei (mi ricordo che questo era um fenomeno che si poteva attribuire anche a Susanna Tamaro, allora mia amica), con facilita di divulgazione in università e Istituzioni varie... Al di la di questi tre elementi, non vedevo nella scrittura di Paolo Coelho niente di considerevole (il tema del viaggio è scontato, l´ascensione, ecc.). Ciononostante, suggerisco una difesa della scrittura, qualsiasi cosa essa sia, anche leggera, leggerissima ... Non ci piace a tutti anche la musica leggera, cioè d´intrattenimento?  C´è qualcuno di noi che non ha mai letto della letteratura “leggera”?  Personalmente sono un fan della fantascienza, su cui Tarkovski, per es. si è ispirato per dirigere Solaris e Stalker, tra gli altri..
Dan Brown e Giorgio Faletti, non ho avuto la fortuna di leggerli. E non mi esprimo. Mentre su Le nozze di Cadmo e Armonia avrei qualcosa da ridire, cioè: si tratta di un testo ultraerudito, ma che non arriva a una densità letteraria autonoma.
Poiché letteratura non è saper usare un linguaggio forbito, far riferimento ai classici, sapersi muovere fra riferimenti intertestuali e intersemiotici. Letteratura è scrivere, in principio, qualcosa originato da un´esperienza autentica (non necessariamente vera, verosimile). Autentica da acutofr, l´autore, com forza autorale. Un´esperienza come  quella del mondo dei sogni (autobiografico) rappresentato da Sigmund Freud (quel grande romanziere!). Sono convinto che si possa parlare di letteratura, quando un´esperienza originale è  rappresentata in maniera originale. Non è possibile avere uno stile del tutto  tradizionale, e voler  rappresentare qualcosa di completamente originale.
Ma la discussione è positiva. Meglio discutere che non discutere. Così com `è meglio leggere che non leggere ! Dice Citati: “ Oggi la lettura tende a diventare una specie di orgia” Potremmo concludere – molto provvisoriamente - che, pur rispettanto Citati e la sua generazione, non tutti condividerebbero la condanna delle orgie: da Petronio al Decameron, da Sade a molti altri...



domingo, 4 de março de 2012

Goya, entre sonho e sono: um problema de leitura

El sueño de la razon produz monstros
O sonho/ sono  da razão produz monstros
                     

                                                                       La fantasía abandonada de la razón produce monstruos imposibles:
unida con ella es madre de las artes y origen de las maravillas
Goya

Um homem desfalecido, dobrado em cima de uma mesa está em primeiro plano da imagem. Numa parede da mesa, em que se apóia, está inscrita a frase que é o título desse Capricho de Goya, o 43. de 80, que ele terminou em 1799, na véspera do século novo. O homem esconde sua cabeça entre os braços, pode estar em soluços. Sua vestimenta é longa e elegante, de um representante da aristocracia ou da burguesia. Ele está fortemente iluminado, como se estivesse no palco; atrás dele, ainda iluminada, um grande passaro, talvez uma coruja, com suas asas abertas; à esquerda e à direita mais corujas e em baixo, atento, um gato enorme, ou uma lince. Em segundo plano animais estranhos, sorrateiros e noturnos. Monstros somente esboçados, na semi-obscuridão: provavelmente morcegos, mas os contornos não são claros. A imagem provoca compaixão em relação ao homem, esgotado e deprimido. Os olhares fixos e alucinados dos animais transmitem espanto, mas também uma atmosfera de delírio misturado a temor ou terror. Um pesadelo: um peso excessivo esmaga o homem, como por pressão de um conjunto de criações do sonho, que não podem ser detidas.
Na água-forte realiza-se uma dupla cena, um duplo triângulo retângulo, um iluminado e outro obscuro e os dois completam uma figura que forma quase um quadrado: o homem completamente esgotado, tremendamente cansado ou fortemente deprimido, encolhe-se completamente, num afastamento completo do mundo que o cerca. Ele não percebe os inúmeros bichos que o fixam com um olhar curioso e pouco comum e que criam uma atmosfera alucinada e hostil ao mesmo tempo. O homem  enterra sua cabeça em seus braços, definitivamente perdido, antecipando a total prostração do homem deseperado de um desenho de Franz Kafka. Os bichos são, ao mesmo tempo, produtos de sua imaginação e seu íncubo, pois o próprio título declara que “El sueño de la razón produce monstros”. O  íncubo, representado pelos animais mitológicos ou  demoníacos, pressiona o inconsciente do protagonista. E há o aspecto contraditório da criação ou criatividade (produz), que antecipa os monstros da cultura ou civilização. Sabemos que o homem retratado é o próprio autor, que não  mostra o próprio rosto. Mas no Capricho n. 1, programática, há uma apresentação de Goya, em trajes elegantes, olhar irônico e desdenhoso. O  Capricho n. 43, uma forma de espelho, praticamente no meio da série de 80 Caprichos.

Há, finalmente, o problema - crucial - da tradução da palavra sueño (El sueño de la razon produz monstros), pois em espanhol sueño traduz-se “sono”. Algumas  traduções em várias línguas optaram por traduzir sueño por “sono”: por ex. em italiano “Il sonno della ragione”, em inglês “The Sleep of Reason Produces Monsters” e em francês, Le sommeil de la raison produit des monstre. Em alemão mais a opção Traum sonho, em e em português as duas opções. Nos desenhos  preparatórios aos Caprichos, Goya tinha usado a palavra sueño: “O autor sonhando. Sua única tentativa banir prejudicial vulgar e perpetuar com esta obra de caprichos o testemunho sólido verdad. Deve-se traduzir, portanto, o sonho da razão ... ou o sono  da razão, ou algo ... entre as duas?  A ambigüidade é ... muito produtiva!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Maquiavel, mais um comentário

Publico aqui um comentário de Evandro Souza a respeito das minhas observaçoes de um post anterior, sobre O PRÍNCIPE  de Nicolau Maquiavel, e convido outros  a se manifestarem, pois a questão de Maquiavel é particularmente interessante, a partir da visão da ética da leitura...


 Martin van Heems Kerck, 1527(sacco di Roma)


Escreve Evandro Souza (que aproveito para comprimentar!): 
"nas ações de todos os homens, especialmente nas dos príncipes, quando não há juiz a quem apelar, o que vale é o resultado final". Uma coisa que sempre me pareceu um paradoxo é a forma como Maquiavel legitima o uso da tirania política pelo príncipe. Ora, se vale qualquer coisa para se chegar ao fim ou obter o poder almejado, Maquiavel não deixa de ser um potencial obstáculo, pois o príncipe poderia também aniquilá-lo caso fosse necessário. Seria no caso uma ética que coloca seu próprio formulador numa forca. Enfim, não deixo de achar Maquiavel uma mente confusa. Ou talvez seja a minha... 


Vc está certo, Evandro: Maquiavel descreve um mundo de potenciais inimigos, um mundo cruel, que corresponde à idéia que temos do primitivo capitalismo. O príncipe deverá eliminar todos os que o cercam, em princípio, como, de resto, Cesare Borgia, protagonista do texto de Maquiavel, fez com Vitellozzo, barbaramente trucidado, de forma completamente desprevenida (e covarde). Se realmente quer alcançar a função de Conselheiro do príncipe (que realmente ele almeja e para que ele escreve), Maquiavel terá que correr esses risco de ser considerado aliado desse ou daquele conspirador (como realmente aconteceu no passado). 
          Mas - eu diria - Maquiavel não sugere ao Príncipe uma nova ética. Nossa noção de ética está associada - sim - à norma, ao comportamento, às atitudes a serem tomadas. As normas que Maquiavel sugere, porém, representam um conjunto de visões altamente cínicas. Para poder fazer uma comparação, lembro da lastimável conduta que Cortés e Pizzarro,  enviados do imperador (Carlos V) tiveram alguns anos depois nas Américas. A conduta de Cortés no México, por exemplo e sua relação com Montezuma, foi a mais bárbara e deprimente atitude, que renega qualquer princípio humano.  Veja-se o excelente livor de Todorov: 
http://pt.scribd.com/doc/53164025/a-conquista-da-america-a-questao-do-outroLIVRO
Maquiavel - todos os autores são unânimes - "resgata" seu cinismo com  o capítulo em prol da unificação italiana, um capítulo meio fora do contexto do livro, que é tb o último.  

O que eu defendo é uma etica da leitura, algo radicalmente diferente de nossa noção de ética. Trata-se de uma visão da ética que se restringe (ou se concentra) na leitura e que se realiza com um triplo movimento: leitura e análise do texto, depois: escolha de um aspecto determinado da leitura (que o próprio texto deverá sugerir à moda a crítica estilística ou da Câmara clara de Roland Barthes) e, finalmente, a formulação da nova interpretação, cujo texto deverá-se apegar ao original de forma indelével (O modelo dessa leitura é apresentado por Harold Bloom em sua Angústia da Influência  e Cabala e crítica). De certa forma, como a noção de tradução se comporta com o original, na visão de Walter Benjamin, em A tarefa do tradutor.

O problema que me parece relevante, do ponto de vista da ética da leitura, que defendo, é  que a análise que Maquiavel faz da Pensínsula italiana da época não corresponde ao contexto, principalmente no que se refere ao equilíbrio do poder das cidades estados da Península. Pois não há dúvida que os dois estados (ou cidades estados) fortes eram Florença e Veneza, problemática que no Principe não merece a menor atenção. E não há dúvida que para a unificação da Península, a aliança entre esses dois estados era certamente decisiva. 
O Principe, então, vistas as imprecisões, deve ser considerado uma ficçãocomo a comédia A  Mandrágora do mesmo autor: um texto de ficção, uma narrativa. Enquanto descrição histórica, ela carece de fundamentos. Enquanto base para uma visão da ética capitalista, ela é lamentável. É somente enquanto obra literária que é muito marcante e desenvolve um estilo forte e próprio. 

Johannes Ingelbach séc XVII 
(Il sacco di Roma) 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Maquiavel e o destino da Europa


                                            Matthäus Merian, Sacco di Roma 6 maggio 1527.
                                                     Acquaforte da Johann Ludwig Gottfried,
                                                       Historische Cronica


 
Maquiavel e o destino da Europa

As atuais dificuldades em que versa a Europa (Grécia e Itália, países de tradição “clássica”), apontam para um duplo trauma de nascimento – como definir a violenta agregação da Europa no séc XVI: uma origem, um nascimento? – quando príncipes se tornavam imperadores pela ingerência dos aventureiros e do mercado e quando os estados europeus se tornaram “modernos”, a um preço caro demais: devastações, emigração de massa, erradicação das populações. A memória – é sabido – não concede perdão. Ela guarda por anos ou séculos aqueles “monumentos da barbárie “ (W.Benjamin) e de forma abrupta (em crises subitâneas) ou, em momento de maior calma (em princípio, momentos de crise ou de depressão) devolve seus fantasmas, aumentados.
Desde 1492 o mundo está dividido numa hierarquia, que extendeu seus tentáculos sempre mais longe e afirmou sua hegemonia no cosmo inteiro (I. Wallerstein O sistema mundial da economia européia). O ano de 1492, fatídico, coincide com a expulsão dos “mouros” e, sobretudo com a expulsão dos judeus, uma primeira catástrofe  inimaginável na história desse povo.  É fácil ver retrospectivamente nos judeus, que eram tradutores e intérpretes, além de comerciantes e cosmopolitas, uma espécie de “consciência” coletiva intelectual do Velho mundo. Eles que falavam facilmente seis línguas, administravam a Penínula Ibérica e, ao mesmo tempo, eram letrados e especulavam sobre os complexos caminhos da Cabala. Expulsão dos judeus, derrota dos mouros e “conquista” da América: o ano de 1492 trouxe uma coincidência sintomática e programática: o  mundo “moderno” teve sua origem -  como no terceiro filme Alien,  quando vemos os humanos são derrotados e um alien se dirige à terra, comandado pelo computador central. O mundo, em sua expansão depois de 1492, vive essa sua origem muito violenta. O mundo precusou afastar a ética, simbolizada pelos judeus e, posteriormente, pelos protestantes (os católicos eram governados por papas-reis, guerreiros e bom viveurs).
Maquiavel escreve então seu Principe, com um estilo vigoroso, repleto de imagens fortes, que reforçam o uso da língua vulgar moderna, no caso dele o florentino. Mas Maquiavel comete dois tropeços metodológicos, que ficaram encobertos pelo brilho de sua prosa. Por um lado, a Serenissima, a gloriosa República de Veneza, é considerada por ele um inimigo mortal (e isso foi não somente por Maquiavel). A unificação da Península (último dos capítulos do Principe), certamente não podia ser empreendida, se Veneza, principal potência na Península e no Mediterrâneo continuava considerando prioritária uma aliança com o papa ou com a França, exatamente contra Veneza).
Em segundo lugar, se Maquiavel não disse literalmente, como muitos afirmam, a fatídica frase:  “O fim justifica os meios”, ele escreveu algo muito parecido: em seu cap. XVIII o Principe afirma que “nas ações de todos os homens, especialmente nas dos príncipes, quando não há juiz a quem apelar, o que vale é o resultado final. “ (Príncipe, cap. XVIII, p. 107 Penguin – Companhia,2010 ). A subordenação ao fim parece muito clara na narrativa do Princípe,  que apresenta Cesare Borgia como herdeiro das glórias de Florença e da Itália. E Borgia, no fundo é um espécie de anão deformado (historicamente e eticamente), um Jack o Estripador da política. Filho do  sangrento papa Alexandre Borgia, irmão de Lucrezia Borgia. Somente uma visão distorcida e irônica de um Maquiavel, autor da Mandrágora, podia ser apresentado como potencial origem de uma nova  dinastia, que poderia unificar a Itália.
A hipóetese, aqui, é que a  ética de Maquiavel pode ser considerada falha e pouco produtiva, não porquê de forma escandalosa defende uma prática vergonhosa das relações humanas (há uma condescendência com a terrível violência representada de forma espalhafatosa), mas porquê  sua leitura do contexto da época estava  equivocado, pois a ausência da Sereníssima República de Veneza na análise da Península apontava para uma falha decisiva. Para Maquiavel também vale o princípio – que é vigora na literatura: uma análise precisa estar baseada numa leitura plausível e aceitável, para tornar-se pertinente  (ou seja: que pertence)  e produtiva (ou seja, que se torna indispensável na leitura posterior).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

L´Italia di Monti (abbiamo conquistato mari e monti)



Tu vo fa´l´americano ...

Un intervento sul problema Monti (e l´articolo di Asor Rosa)

Caro Gad Lerner,
ti scrivo da un Brasile che ormai non è più tanto lontano (lo era un po´ di più, quando ci sono venuto 30 anni fa). Due coincidenze: sono di origine ebraica (con tutti problemi che ciò comporta) e ho fatto il mio primo esame di letteratura italiana con Asor (adesso insegno appunto letteratura italiana presso l´Università di Rio UFRJ). Ti chiederei se mi puoi mandare l´indirizzo di Asor (che è stato in Brasile, invitato da noi, quel fatidico 2001, l´11 settembre!!!)
Innanzitutto, direi (in spirito Lerneriano o Lernerista): VIVA Asor, perché… cosa farne di un´Italia inerte, succube e schifata che non prende carta e penna per protestare? Viva Asor perché gli argomenti sono argomenti forti e perché (detto fra di noi) … a me è sempre piaciuto Lawrence d´Arabia. Scopro su internet che ha anche detto:
“Non tutti gli uomini sognano allo stesso modo… ma quelli che sognano di giorno sono uomini pericolosi perché può darsi che recitano i loro sogni ad occhi aperti per attuarli…fu ciò che io feci …
Io intendevo creare una Nazione nuova, ristabilire un’influenza decaduta, dare a venti milioni di Semiti la base sulla quale costruire un ispirato palazzo di sogni per il loro pensiero nazionale”
Cosa volevamo fare noi, nel ´68? NOn volevamo (visto con una certa larghezza) ritrovare l´orgoglio dell´identità nazionale (essere italiani, ma socialmente impegnati). Dare una base sociale a un´unità d´Italia nata come annessione, centralizzazione, corruzione, visione periferica… La verità è che non ci siamo riusciti (io allora ho deciso e me ne sono andato, una specie di esilio, autoesilio o, per farla meno drammatica, la ricerca di un paese più accogliente, più simpatico, meno saccente, triste, orgoglioso, col naso all´in sù,più spontaneo.
Anche se Asor ci sta simpatico, anche se Napolitano ha fatto sostanzialmente bene, il governo Monti, continua a essere il prodotto di un vero golpe istituzionale. Per fare un parallelo forte: Il governo Badoglio, prodotto di un vero e proprio golpe contro la dittatura Fascista. Forse è per questo che non c´è mai stata in Italia una (neanche la parola esiste, che esiste in tedesco per il nazismo) defascistizzazione. E sarà per questo che non ci siamo liberati del fantasma di Mussolini e non ci libereremo del fantasma di Berlusconi.
Siamo sempre ed ancora adepti di questa filosofia furbesca che fa capo a Machiavelli (varrebbe invece la pena di discuterla). D´altra parte, siamo ancora convinti che … “Italiani brava gente…”
Dico (dal Brasile, dove vivo) Viva Asor, ma penso che dobbiamo riflettere meglio sull´assenza di un movimento per l´etica in Italia. Magari come quel movimento dell´India ispirato a Anna Hazare
lombardi.andrea@gmail.com
20-02-2012 17:05 – Andrea Lombardi